Origem do nome pé-de-moleque

quadro por Salomão Zalcbergas

Tia Marluci colocou a lenha no fogão que seu avô construira.

Tirou da prateleira a rapadura e o amendoim.

Assim que a brasa tinha pegado e o forno estava quente, colocou o amendoim pra torrar.

Quando pronto, tirou a casca do amendoim.

Foi lá fora, colocou metade no pilão. Pilou com aqueles braços fortes até que o suor descia na testa.

Num tacho de fundo grosso juntou água aos pedaços de rapadura, que derretiam devagarzinho acumulando de leve os aromas de fumaça da lenha.

Preparou o tabuleiro, untado-o com manteiga que tinha feito na mesma manhã.

Quando o melado de rapadura deu ponto, juntou o amendoim moído e o inteiro e uma colherzinha de manteiga. Mexeu com uma colher de pau até dar calor no corpo que encostava a barriga no fogão.

Despejou o doce no tabuleiro e colocou na janela pra amornar.

Aproveitou que o doce não tinha endurecido ainda e repartiu em pedaços do tamanho de uma bocada.

Sentou-se na cadeira rústica pra descansar. Ficou alegre em pensar que sua neta Marizete iria visitá-la naquela tarde, vindo da cidadezinha vizinha. Seu olhar pasmo e um sorriso quase secreto nos seus lábios, que já não eram mais tão carnudos como antigamente.

Quando ela menos esperava, passou um bando de moleques do lado de fora, correndo e metendo a mão no tabuleiro, furtando o quanto uma mãozada conseguia naquela pressa toda.

Inconformada, foi correndo até a janela e berrou:

Pédiiiiiii muleque!!! – e pensou para si mesmo que não se educam crianças como antigamente…

Olhou pro tabuleiro e viu que ainda sobrava do docinho pra neta.

pé-de-moleque

Batizado o doce conhecido como pé-de-moleque, que além de ser as palavras que tantas tias Marlucis berram quando tem seus docinhos roubados, se assemelhar os pés descalços, cheios de calosidades, das crianças que correm descalças, roubando docinhos de janelas.

3 comments

  1. Olá,
    Uma vez li que o nome do doce se deve ao fato de que as “calosidades” nos pés das crianças não deviam somente ao fato de andarem descalças, mas sim à grande quantidade de bichos-de-pé que elas tinham, numa época em que a profilaxia não existia. Está no livro Os Insetos, de Eurico Santos.

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