Fraude alimentar

Você acha estranho quando no mercado percebe que os produtos que você compra já não são os mesmos?

Que a nova manteiga é margarina, o novo requeijão é uma especialidade láctea com amido, iogurtes que também encaixam nessa categoria, sucos são concentrados químicos.

Coloque o produto de volta e siga sem olhar pra trás.

[Segue um ótimo texto do sociólogo Carlos Alberto Dória sobre o tema:]

Mas o que é exatamente uma fraude? O dicionário nos diz: “Qualquer ato ardiloso, enganoso, de má-fé, com o intuito de lesar ou ludibriar outrem, ou de não cumprir determinado dever”. Já falsificar é “dar aparência enganadora com o fim de fraudar, de fazer passar por verdadeiro o que não é”. Ou seja, fraude e falsificação são ardis, enganos intencionais. Mas não é este o propósito da química dos alimentos.

Após a Revolução Francesa a legislação sobre fraude e falsificação alimentar curvou-se à idéia de liberdade contratual, podendo ser comercializado tudo o que fosse bom e agradável que não fosse nocivo à saúde e, no plano econômico, não representasse um delito contra a propriedade ou um “abuso de confiança”. Nesse plano, a “fé pública” sempre foi o atestado da qualidade alimentar.

Então, à medida que as ciências avançavam e penetram o universo da produção alimentar, além do controle de “pesos e medidas”, será a “inovação” que ocupará o centro dos conflitos em torno da qualidade alimentar, da fraude e da falsificação.

O leite, a carne, o queijo, o vinho, todos foram objeto dessas “fraudes” modernizadoras. Mas as leis posteriores à metade do século serão sempre mecanismos de regulação da competição, motivadas por produtos químicos adicionados à alimentação com o objetivo de melhorar o seu desempenho no mercado.

A idéia de “produto alimentar de qualidade” vai se afastando da noção limitada de “natural” e acaba se ajustando a essa nova realidade, onde qualquer coisa comercializada que deixe explícito o que é adicionado, subtraído ou substituído antes de ir ao mercado parece apta a ser incorporada.

Com o tempo, o próprio discurso alimentar se modificou. Em vez do elogio do artesão, o marketing incorporou imagens de laboratórios, homens vestindo guarda-pós e máscaras manipulando o alimento. A imagem da “segurança” passou a ser tributária do modo de produção industrial.

No outro pólo, a produção artesanal aparecerá como algo “sujo” e contaminante, ou até mesmo bárbaro, quando como sabemos, por exemplo, que os índios e amazonenses cospem na mão com que manipulam a mandioca ralada para fazê-la fermentar e elaborar as suas apreciadas farinhas (…).

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