Guru Jo

Jo

 

[escrito 23.11.11@ PunPun Farm ]

Após a janta, fomos desfrutar de uma linda história de ninar. A inspiradora história do Jo, cujo agora tenho vontade de chamar de Guru, fundador da fazenda.

Ele é do território norte Tailandês, que sempre foi considerado o mais pobre do país. Mas quando ele era criança ele não sabia disso… Ou, nem havia essa possibilidade pois não conhecia outra realidade.

Morava numa comunidade que não havia eletricidade nem dinheiro, apenas escambo. Muito do que consumiam vinha da floresta. Plantavam mesmo para sua subsistência, mas acabava que sempre havia uma singela fartura. Então sempre acompanhava sua mãe, viajando a pé às 5 horas da matina a quase cada manhã para o vilarejo mais próximo com seus vegetais e produtos do jardim em cestas que carregavam nos ombros. Plantavam e ‘vendiam’ maconha também, que naquela época não era proibido ou regulamentado nem mesmo era algo fumado; mas um tempero, que ficava ótimo na sopa de galinha. Chegavam ao redor de 7h00, quando a cidade acordava e podiam fazer as trocas. Muitas vezes queriam comprar alho e algodão, que sua avó tecia para fazer roupas para a família.

Trabalhavam apenas dois meses do ano: um mês para plantar, outro para colher. Cerca de duas horas por dia. Havia então muito tempo para desfrutar e relaxar. Muitos festivais para se aproveitar também. Todos se conheciam e sempre havia amigos para conviver.

Quando tinha cerca de 12 anos chegou o primeiro rádio na cidade. E o rádio dizia pras pessoas começarem a plantar “cash crops”. De início, ninguém deu muita bola… Mas logo um homem desmatou uma partezinha da floresta, começou sua plantação e a vender em maior escala. Passou a existir o dinheiro, mas não havia muito valor ainda. Em pouco tempo, esse mesmo homem trouxe a primeira bicicleta… De repente muitos queriam uma bicicleta também, então o segundo homem foi à floresta, desmatou mais um pouquinho e começou também a produzir industrialmente…  Assim chegou a primeira motocicleta na cidade… E muitos passaram a querer uma motocicleta e para isso, dinheiro.

No meio disso tudo, chegou também a primeira televisão preto e branco na cidade. Esta ficava numa casa, num cômodo que havia uma janela e uma árvore ao lado de fora, que era o banco do cinema onde muitos ficavam a admirar aquela caixa mágica do lado de fora.

Com a TV, conheceram praias lindas e um mundo que antes não existia. Aprenderam também que eram a região mais pobre do seu país e a menos educada. Passaram a ter o sentimento de que teriam que ir para a grande cidade, Bangkok, para poderem então se educar, ganhar dinheiro e prosperar…

Dito e feito.

Lá passou a trabalhar 8 horas por dia e ganhar dinheiro. Ganhava cerca de 3 mil Bhat por mês (150 Reais), mas pouco sobrava de seu salário; mesmo comendo apenas arroz ou macarrão, com pouquíssimo vegetais e nenhum tipo de carne. Seu salário era mais do que jamais ganhara, mas não deixava de ser uma miséria ao final do mês.

Em Bangkok, para tentar pertencer ao local e à sociedade, fazia de tudo para não parecer como uma pessoa do norte do país, pela fama que tinham de pobres e mal-educados… Naquela época estava na moda usar aqueles jeans – Levi´s 501. E eram caros!, cerca de 1,200 Bhat uma calça. Deixou de almoçar por um mês para adquirir uma… Quando finalmente conseguiu, se olhava no espelho de direita à esquerda… Percebeu que não se sentia diferente por causa daquela vestimenta e continuava a ser a mesma pessoa.

Assim ficou por 7 anos, quando se deu conta do absurdo. E começaram seus questionamentos:

Quando era menor, trabalhava tão pouco mas tinha uma ótima alimentação e tempo para usufruir e agora trabalhava 8 horas por dia e ao final do dia não tinha o que comer? E ainda trabalhava no seu dia de folga ou ao menos estava sempre pensando no trabalho! Não havia um descanso verdadeiro. O que é a urbanização? O que é civilização? E a moda? (A maior besteira de todas.) Percebeu que esses termos tinham uma conotação negativa para ele…

Voltou para sua cidade, na casa de seus pais, desiludido e sem grana. Nunca teria sua própria casa. Mas voltou a plantar e viver novamente como na sua infância. Viu que assim conseguia guardar mais dinheiro do que morando em Bangkok. Bastava investir o seu tempo para sobreviver, ou melhor viver,  ao morar no interior, cultivando sua comida, etc. ao invés de ter de investir seu dinheiro (que implicava as 8 horas de trabalho diárias e o não-descanso). Morava numa casa simples de bamboo, se alimentava de sua própria horta e com o restante que sobrava, vendia e conseguia guardar esse dinheiro porque não precisava gastar com mais nada.

Passou a nunca mais seguir a moda… Até hoje diz usar apenas roupas velhas e isso amenizou muitos problemas para ele. Muitos de seus amigos não o chamavam pra jantar ou ir pro bar ou balada, pois não queriam andar com ele e suas roupas velhas. Outros amigos deixaram de chamá-lo para seus casamentos, o que foi ótimo pois não gastava dinheiro com essas coisas nem mesmo se preocupar com isso. Viu que as pessoas o perturbavam menos. Nem mesmo os pedintes da rua pediam dinheiro para ele… E hoje em dia, quando chega na cidade, onde os taxistas enchem o saco das pessoas para conseguirem clientes, não enchem o dele…  Isso acabou repelindo as pessoas certas, deixando apenas os verdadeiros amigos e também atraindo as pessoas certas, com idéias e ideais parecidos…

Em algum momento, conheceu a pessoa certa e teve a oportunidade para ir ao Novo México, E.U.A.. Acabou entrando em contato com uma tribo que moravam em casas de adobe. Ficou encantado com as casinhas e como eram frescas por dentro apesar do calor externo.

Aprendeu a fazer essas casas.

Voltando à Tailândia, começou a construir sua própria casa. Diariamente recebia visitas de vizinhos curiosos e descrentes pois não se usava essa técnica no país. O chamavam de louco por acreditar que poderia fazer uma casa de terra, de poeira!

Então, em 3 meses, construiu sozinho sua morada sem gastar um tostão e percebeu o quão fácil é ter sua própria casa e que qualquer um poderia ter a sua também.

Os descrentes se tornaram crentes e logo queriam ser adeptos desse tipo de morada. Assim começaram os workshops…

A demanda crescia firme e constantemente, e logo Guru Jo se viu viajando o país disseminando seu conhecimento, logo apoiando ONGs e se afiliando à entidades e pessoas… A mídia chegou e com isso mais e mais trabalho. Assim foi por cerca de 5 anos, quando percebeu que tudo deixou de fazer sentido. Ele já não tinha mais sua casa, não cultivava mais seus alimentos, estava longe das coisas que importavam de fato. Também não havia dinheiro pois viajava mesmo por conta própria e não ganhava tanto dinheiro com os workshops.

Começou a se preocupar com a sua saúde. Se adoecesse, não teria dinheiro para cuidar de si próprio… Percebeu então a grandeza de estar doente e cansado. Percebeu que são apenas nesses momentos que voltamos para nossa cassa interior e então nos damos a atenção merecida. Quando estamos no “aqui, agora”. Prestamos atenção ao nosso corpo, às necessidades. Percebemos até que nós respiramos! Normalmente não nos preocupamos com isso no nosso dia-a-dia. Resolveu cuidar de suas necessidades – desde as biológicas às espirituais. Percebeu que mesmo se tivesse grana, adoeceria da mesma forma e morreria como tudo morre. E que há pessoas com muito dinheiro que morrem jovens… Temos uma grande ilusão com o dinheiro; e no fim, ele nada previne.

Entrou no mundo, ou talvez tenha voltado às origens, da medicina com ervas, natural e caseira… Retomou seu hábito de jardinar e àquele mundo para o qual sempre voltava quando estava cansado e precisava voltar para casa. Um mundo exterior que refletia seu interior pacificado e tranqüilo.

Começou a procura por uma terra que pudesse chamar de sua.

Com a ajuda de um amigo, encontrou uma ‘terra boa’, com 9 hectares. Investiu todo dinheiro que tinha nela e com a doação de alguns outros amigos, conseguiu comprá-la.

A terra estava nua, despida de natureza. Nem flora nem fauna.

Seu dono antigo plantava uma coisa qualquer e fazia queimadas anualmente, apenas para deixá-la “limpa”, achando que isso seria um apelo para um comprador qualquer. Esse ciclo degradou todos os nutriente do solo.

Os moradores do vilarejo tiravam sarro da burrice dele em comprar esta terra.

Começou o desafio e a fortaleza do Jo.

Fez uma casinha de adobe.

Porém, tudo que plantava na terra, morria. Como diz o manual, resolveu plantar feijões para enriquecer o solo com nitrogênio de forma natural. Nos feijões brotavam duas folhas e logo padeciam, desnutridos.

Sem saída nem comida, Jo passou a comer banana, o único alimento que havia por perto, nas três refeições do dia, por três meses. Começou comendo as flores das bananeiras. Quando acabaram estas, comeram o fruto e conseqüentemente o caule da planta.

Ao longo do tempo, Jo viu que apenas crescia mato no seu terreno. Um mato que seria gigante e com raízes profundas, era anão e fraco na sua terra. Mas passou a recolher sementes e espalhá-las no terreno. E com a ajuda da época de chuvas, passou a ter mato anão. Assim, cortou todo o mato e o deitava todo no solo, dando início ao processo de compostagem. Já na sua próxima “safra” de mato, este já não era tão anão e suas raízes começaram a modificar.

Assim Jo foi entendendo e aprimorando seu contato com a mãe Terra. Sempre fortalecendo esse elo. Começou seu lindo projeto de banco de sementes.

Com o constante crescimento do uso de pesticidas e sementes híbridas, apostou em voltar às origens mais uma vez.

Voltou a fazer workshops de adobe, só que de graça para locais e os vizinhos do Laos… Não tinha muito dinheiro. Mas sempre tinha um ideal!

A fazenda passou a ser um centro de aprendizagens. Um centro de aprendizagens pra quem mora nela! Para aprender a voltar a viver em comunidade, inseridos na natureza, entender a inter-conectividade de tudo!, em harmonia. Deixar de lado esse pensamento de individualismo que nada mais é do que ilusão, também a noção da prisão social.

Ele nem quantifica mais seu trabalho em horas, pois não é mais trabalho. Além de tudo é seu lazer. E com o jardim e a agricultura, percebeu que quanto mais ativo é, mais ativo fica. Que a atividade gera apenas benefícios e vontade de movimento.

Ele diz ser muito preguiçoso – que quando algo passa a ser muito complicado e não divertido, não tem vontade de fazer. Porque a vida tem que ser simples e divertida! (Como na natureza, nada é complicado!) Senão não faz sentido… É uma forma muito humilde de expressar sua enorme sabedoria!

Guru Jo, Namastê!

Muito inspirada… e muito grata!

4 comments

  1. Renata Amaral

    a simplicidade nos traz riquezas imensuráveis. Por exemplo… sinto falta de passar a mao no seu rosto pra te beijar. tão simples, tao singelo… estou morta de saudades!!

  2. te amo, minha saudades tb é imensuravel! mil beijos!

  3. Dani

    Carol, adorei a história! Linda, linda! É vida é mesmo simples, nós que complicamos… bj,

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: